Quem poderia imaginar um discurso desses? Após oito anos de obscurantismo a luz brilha.
O presidente americano lembrou a importância da Universidade do Cairo, local onde fez o discurso, na história recente do Egito. E foi aplaudido ao terminar a introdução ao seu discurso com um “Assalaamu Alaykum”.
O relegamento a um papel sem importância foi imposto pelo Ocidente ao mundo islâmico, o que serviu de argumento a extremistas, tendo os ataques de 11 de setembro de 2001 sido o seu ápice.
A força do extremismo terminará se a atacarmos com a cooperação e o reconhecimento do que temos em comum, ao invés de enfatizarmos nossas diferenças. Esse discurso apenas não consertará nada, mas é preciso expressar a necessidade de ouvirmos uns aos outros. E citando o Corão: “Tenha a consciência de Deus e fale sempre a verdade”(aplausos).
Obama lembrou que é cristão, mas seu pai foi muçulmano de várias gerações, e que ele próprio viveu na Indonésia ouvindo o chamado para as orações. Lembrou os débitos da civiliação com os islamitas por terem aberto os caminhos para a Renascença e o Iluminismo; a álgebra, o compasso, os instrumentos para a navegação, a descoberta de doenças e sua maneira de contaminarem; a tolerância religiosa e a igualdade racial(aplausos).
O Marrocos foi o primeiro país a reconhecer a independência americana. A comunidade islâmica enriquece o povo americano através do serviço público, luta pelos direito civis, empreendedorismo, vida acadêmica, Prêmios Nobel… Considero minha missão como presidente lutar contra os estereótipos criados contra o Islã(aplausos).
Como também contra os estereótipos criados contra os Estados Unidos(aplausos). Somos a maior força de progresso que já existiu no mundo, baseada no princípio de que todos os homens foram criados iguais. Minha história pessoal não é única: um afro-americano, chamado Barack Hussein Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos(aplausos).
Vivemos num mundo unificado, onde uma crise econômica afeta a todos, assim como uma epidemia. Temos responsabilidades com os outros seres humanos. Aqueles nações que querem se impor às outras falirão nesse mundo novo. Isso quer dizer que temos que enfrentar as tensões, e é disso que vou falar agora.
A América não está em guerra com o Islã, mas não vamos dar trégua ao terrorismo. Todos repudiamos o assassinato de homens, mulheres e crianças inocentes. A situação no Afeganistão demonstra nossa necessidade de trabalhar juntos. A Al-Qaeda matou 3 mil inocentes num só dia, e precisamos ir atrás deles. Não queremos permanecer indefinidamente lá, mas precisamos combater o mal, inclusive com ajuda para o desenvolvimento da economia daquele país, para o qual estou destinando US$2,8 bilhões.
Iraque. Foi uma guerra que causou divisões dentro do meu país. Apesar de eu achar que o fim de Saddam Hussein foi melhor para os iraquianos, acho que a diplomacia é a melhor maneira de responder a esse tipo de problemas(aplausos). Hoje temos a responsabilidade de ajudar o Iraque a forjar um futuro melhor, e deixar o Iraque para os iraquianos(aplausos).
Os acontecimentos de 11 de setembro foram traumatizantes, mas proibi a tortura e fecharei Guantánamo(aplausos).
Agora, Israel, Palestina e o mundo árabe. Temos muitos laços com Israel, e nossa amizade é inquebratável. Depois de séculos de perseguições que culminaram com o Holocausto, os judeus agora têm a sua pátria.
Por outro lado, o povo palestino – muçulmanos e cristãos – têm sofrido a dor da expulsão por mais de 60 anos, sofrem a humilhação diária da ocupação. A situação do povo palestino é intolerável. E a América não virará as costas para as aspirações legítimas de dignidade, oportunidades e de seu próprio estado do povo palestino.
A única saída para esta crise que se arrasta é que os dois povos encontrem através de dois estados uma forma de viver em paz e segurança(aplausos), o que é de interesse dos dois povos.
Os palestinos têm que abandonar a violência. Não foi a violência que conquistou os direitos civis para os negros de meu país. O mesmo se aplica à África do Sul, à Indonésia e à Europa Oriental. A violência é um beco sem saída.
Chegou a hora dos palestinos voltarem-se para a construção. O Hamas tem que acatar suas responsabilidades para com o povo palestino. O Hamas precisa aceitar o direito de existir de Israel. Da mesma forma, Israel não pode negar esse direito aos palestinos. Os Estados Unidos declaram a ilegitimidade da continuação dos assentamentos israelenses(aplausos). Chegou a hora desses assentamentos pararem(aplausos).
Israel tem que cumprir com sua obrigação de assegurar que os palestinos possam viver, trabalhar e desenvolver sua sociedade. A devastação das famílias palestinas, a continuidade da crise humanitária na Faixa de Gaza não é bom para a segurança de Israel; nem a continuação da falta de oportunidades na Margem Oeste.
Também alguns estados árabes não podem usar essa crise para encobrir seus problemas internos.
Está na hora de agirmos. A paz não pode ser imposta. Ambas as partes reconhecem que o outro não poderá ser aniquilado. Todos temos a responsabilidade de trabalhar para que mães israelenses e palestinas possam ver seus filhos crescerem sem medo; para que a Terra Santa seja o lugar que Deus teve em mente; como na história de Isra, quando Moisés, Jesus e Maomé, paz para eles, se uniram em oração(aplausos).
A terceira fonte de tensão são as armas nucleares.
Há um relacionamento tumultuoso entre os Estados Unidos e o Irã. Os Estados Unidos ajudaram a derrubar um governo eleito pelo povo. A Revolução Islâmica hostilizou ao máximo os Estados Unidos. Será duro esquecer décadas de desconfiança. Precisamos, porém, ir em frente com coragem, retidão e disposição. Pecisamos evitar uma corrida nuclear armamentista no Oriente Médio.
Há quem protesta que alguns países têm armas nucleares e outros não; que nenhum país tem o direito de estabelecer quem pode e quem não pode ter armas nucleares. É por isso que os Estados Unidos são a favor de um mundo sem armas nucleares(aplauso). E qualquer nação – inclusive o Irã – deve ter direito a ter acesso à tecnologia nuclear pacífica se aceitar as responsabilidades do Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares.
O quarto ítem que quero tratar é democracia(aplausos).
Debate-se a questão da democracia com relação à guerra do Iraque. Quero ser claro: nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto por uma nação a outra nação. O que não quer dizer que diminuiremos nosso apoio a governos que refletem a vontade do povo. Mas eu estou convencido de que todos querem essas coisas: confiança na aplicação das leis, e administração igualitária da justiça; governança transparente e sem roubo da coisa pública; a liberdade de viver como se escolher. Isso não são idéias americanas, são direitos humanos.
Alguns defendem a democracia quando não têm o poder, mas quando o têm suprimem os direitos dos outros(aplausos). Padrões iguais têm que ser utilizados pelos que têm o poder. Consenso, não coerção. Os interesses do povo devem estar acima dos de seu partido políticos. Sem isso, eleição apenas não fazem a democracia.
Alguém na platéia gritou: Barack Obama, nós te amamos!
Obrigado, respondeu o presidente, sob aplausos.
O quinto ponto é a liberdade religiosa.
Esta é uma tradição que orgulha o Islã. Mas existe a tendência entre alguns muçulmanos de rejeitar a fé de outros. E também da parte de alguns países ocidentais, como por exemplo querendo ditar a maneira dos muçulmanos se vestirem.
Na prática, a fé deveria nos unir. Por esta razão estão começando projetos na América para unir cristãos, muçulmanos e judeus. Por esta razão exalto o projeto saudita de diálogo entre as fés, e a liderança turca na Aliança das Civilizações. Vamos lutar contra a malária e disastres naturais em projetos conjuntos de várias religiões.
O sexto ítem são os direitos das mulheres(aplausos).
Rejeito a opinião de que uma mulher que tem que cobrir a sua cabeça é menos igual, mas aceito a de que uma mulher ao qual se nega é educação é negada a igualdade(aplausos). E não é coincidência que países onde mulheres são bem educadas são os países mais prósperos.
Isso não se aplica apenas ao Islã, onde em países como Turquia, Paquistão, Bangladesh e Indonésia mulheres são líderes. Essa luta se dá em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos. Estou convencido de que nossas filhas podem contribuir tanto para nossas sociedades como nossos filhos(aplauso).
Finalmente, quero discutir desenvolvimento econômico e oportunidade.
A globalização tem ganhos e perdas. Em todas as nações, inclusive nos Estados Unidos, ela traz medo. Mas não podemos negar o progresso humano, mesmo com as contradições do desenvolvimento e da tradição. Países como Japão, Coréia, Kuala Lumpur e Dubai desenvolvem-se sem perder suas tradições.
A moeda do século XXI é a educação. Vou encorajar intercâmbios culturais entre nossos países. Um grupo de voluntários gerenciais será criado para atuar em países de maioria muçulmana. Uma Cúpula de Empreendedorismo acontecerá este ano para aumentar as relações entre os Estados Unidos e comunidades muçulmanas pelo mundo.
Os mesmos incentivos serão dados nas áreas de ciência e tecnologia.
Muitos – muçulmanos e não-muçulmanos – duvidam que poderemos começar de novo. Alguns querem jogar lenha na fogueira do desentendimento e atrapalhar o progresso. Outros acham que o esforço não vale a pena – que as civilizações têm mesmo que guerrear. Se ficarmos ligados ao passado, não poderemos mesmo ir em frente.
Todos passamos por este mundo num breve momento. A questão é se passamos este tempo focados nas diferenças, ou se nos propomos a um esforço – um esforço continuado – de encontrar o que nos aproxima, no futuro que queremos para nossos filhos, no respeito à dignidade de todos os seres humanos.
É mais fácil começar guerras do que terminá-las. É mais fácil colocar a culpa nos outros do que olharmos para nossos interiores. Há uma máxima em todas as religiões: não faça ao outro o que não queres que façam a você(aplausos).
Temos o poder de fazer o mundo que queremos, mas apenas se tivermos a coragem de recomeçar, lembrando-nos do que foi escrito.
O Corão nos diz: Ó humanidade! Criamos o homem e a mulher: e os colocamos em nações e tribos de forma a quem possam conhecer uns aos outros.
O Talmud diz: Toda a Torah tem por finalidade promover a paz.
A Santa Bíblica nos diz: Bem-aventurados os que fazem a paz, porque eles serão chamados de filhos de Deus(aplausos).
Os povos do mundo podem viver juntos em paz. Sabemos que esta é a visão de Deus. Agora este deve ser o nosso trabalho na terra.
Obrigado. A paz de Deus esteja com vocês. Muito obrigado. Obrigado.
Aqui a integra do discurso em inglês.
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