“Homem morto andando”, grita o guarda da prisão na última viagem de um condenado à morte, de sua cela para a câmara de gás.
O grito já foi dado para Fidel e sua revolução. Os cubanos e o mundo olham com respeito. Todos esperam que Barack Obama seja um algoz cortês, respeitoso, que esqueça os erros deste homem e tenha piedade de seu povo sofredor.
Este é o tom do artigo extraordinário de Roger Cohen “The End of the End of the Revolution” (“O Fim do Fim da Revolução”), para a revista dominical do New York Times.
Ele foi a Cuba e a Miami entrevistar pessoas que amam e odeiam Fidel Castro, ou pessoas que simplesmente ficaram letárgicas de tanto esperar a solução para os problemas de um país que resiste para ser fiel à teimosia do Comandante.
O artigo de Roger Cohen é acompanhado de fotografias igualmente extrordinárias de Ambroise Tézenas. Uma delas, reproduzida no final deste artigo, tirada no bar Las Alegrias, simplesmente pungente.
É uma rixa antiga, essa entre Cuba e os Estados Unidos. Depois de conquistar a duras penas a liberdade de Espanha, Cuba foi dominada pelos Estados Unidos por quatro anos, e teve que dar como resgate o território de Guantánamo, e aceitar a intromissão constante do vizinho potente e prepotente. Em paga, Fidel quase conseguiu convencer Kruschev a despejar uma canastra de bombas atômicas no território americano, durante a crise dos mísseis na década de sessenta.
Para Roger Cohen, existe mais do que uma rixa. Existe um bloqueiro mental que impede que cubanos e americanos sejam racionais quando se olham de frente. “Dizer que a crise cubana-americana é anacrônica é pouco”, ele escreve.
De um lado, o orgulho de se livrar de um ditador, Fulgêncio Batista, que permitia que gângsters e cidadãos americanos usassem a ilha como seu quintal para festas e lucros lícitos e ilícitos, enquanto a população não tinha educação, e nem saúde. O orgulho de ter hoje erradicado o analfabetismo, exportar vacinas e médicos para o mundo em necessidade.
Do outro, o encalacração da economia, um regime econômico que favorece a uns poucos e coloca o resto da população sem ter o que fazer, sem ter o que comer , sem ter o criar. Os que reclamam são “inimigos”, e vão passar longos anos na prisão. A liberdade de imprensa não existe. A única voz que consegue se ouvir é de um blog de uma jovem que diz que “se eu for presa haverá uma revolução pela Internet”. Seu blog, http://www.desdecuba.com/generaciony/, é traduzido em 12 linguas.
Na Pequena Havana, ou seja, em Miami, as opiniões amoloceram. Onde havia ódio mortal e não se admitia qualquer opinião que desviasse da oficial, que queria a morte de Fidel, e a volta ao que Cuba era antes da revolução, ouvem-se dissidências entre os mais antigos, e principalmente entre os mais jovens. Eles estão de transferência da política da paixão para a política da realidade.
Em maio, Fidel apoiou a candidatura Obama, e mesmo assim Obama conseguiu muitos mais votos entre os cubanos do que John Kerry há quatro anos. Eles estão no ar-refrigerado, dirigindo carrões modernos, vivendo em casas confortáveis, e têm pena dos que ficaram no racionamento, diante de uma tv que não faz mais do que lhes jogar verborréia oficial. Tudo piorado pelos três furacões que assolaram a ilha este ano.
Em Cuba, os poucos que conseguem desenvolver seus talentos sob a política do partido, continuam a repetir refrôes do passado, sem saber que o mundo atrás daquele mar mudou.
Fidel e seu irmão Raul sabem que esta situação congelada poderá continuar ainda por muitos anos, talvez décadas, com os Estados Unidos bloqueando comercialmente a ilha, e a ilha se mantendo no esquecimento do mundo.
Mas Fidel e seu irmão Raul estão cansados de ver os rostos macilentos. Eles já mandaram mensagem ao algoz. “Venha por favor, traga a faca afiada, mas aja com respeito”. Esse é o desejo das vítimas, do sofrido povo cubano, do resto do mundo, inclusive Miami, onde poucos ainda querem fazer festa no dia do desfecho.

"Las Alegrias". Pura ironia. Foto de Ambroise Tézenas.
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