Leia Junto mandou seu enviado especial a Shenzhen, China…
Aproveitando a viagem de negócios do nosso ilustre amigo e leitor João Canali às terras chinesas, pedi que escrevesse suas impressões para nosso deleite. E aí vão, no estilo próprio de seriedade com humor que distingue o João:
“Em Shenzhen, China, num dia da semana passada às 5 da manhã (5 da tarde do dia anterior de Miami ), na escada de incêndio onde fumantes educados estão redescobrindo as intimidades da arquitetura mundial, me veio à mente um esquecido episódio de Star Trek, onde o capitão Kirk e sua turma se teletransportam para a superfície de um planeta habitado somente por jovens que não envelhecem nunca devido a um acidente genético ocasionado por um experimento científico.
O autor da história considerava que o comportamento irresponsável e imaturo muitas vezes atribuído aos jovens era algo inerente à sua condiçã o física e talvez hormonal, tanto assim que os jovens daquele planeta se comportavam de forma infantil, mesmo tendo centenas de anos de idade… Kirk nada mais fez do que ser o tradicional papai sabe tudo da década de sessenta: pôs ordem na casa e encaminhou-os na vida, após o doutor McCoy contornar o problema do não envelhecimento…
Como o pessoal da Federação Espacial é bonzinho !!! Todos ali passaram a envelhecer normalmente… e em consequência a morrer!!! Perderam a eterna juventude, simples assim !!! Se é que me lembro bem do enredo… posso até arredondar imaginando que aquele planeta deveria ter alguma mina de cristal de lídio, o petróleo dos anos 2600 que possibilitava o deslocamento Warp e que tinha que ser explorado por gente grande… não… claro o doutor McCoy deu motivos para a venda do seguro de saúde que a Federação vende universo afora. Afinal, trata-se da tripulação da Enterprise.
Isso me veio à mente devido à incrível constatação de que aquela gigantesca cidade chinesa de 14 milhões de habitantes, com enormes prédios de arquitetura arrojada – que deixaria qualquer paulista de queixo caído após pronunciar seu último “mêuuu!” – era habitada quase que exclusivamente por jovens. Na verdade, o dado oficial é que a população de Shenzhen possui a média de apenas 30 anos de idade! O dono da fábrica com quem iniciamos negócio tinha 25 anos, andava de bermudas e chinelos em pleno escritório central da fábrica, onde inclusive tinha um vaso sanitário do tipo ocidental, ao invés do tradicional buraco no chão que observamos em oito outras fábricas visitadas e igualmente geridas por jovens, buraco este onde, provavelmente, o capital internacional que construiu a cidade ainda não penetrou totalmente.
Mas não foi um acidente genético que provocou toda aquela juventude. Talvez pudéssemos chamar a coisa de acidente político ideológico. O dono daquela fábrica não tinha um comportamento irresponsável, mas também não fez fortuna por conta própria como em algum orgástico delírio capitalista. Deve ser apenas o filho de algum membro do partido comunista chinês que imigrou para a região quando decidiram (Deng Xiaoping) em 1980 transformá-la em uma zona econômica especial, ou seja, uma Manaus aberta ao investimento internacional (que obviamente tinha como atração poder se utilizar da mão-de-obra barata e disciplinada, sem os riscos de nenhuma greve realizada por agitadores comunistas, como geralmente sempre acaba ocorrendo quando tentam fazer isso em outros cantos do mundo, e sem temer que pagar por direitos trabalhistas, já garantidos pelo governo comunista chinês (saúde, escola, segurança, justiça com direito a tiro na nuca, etc…).
A grande diferença é ser uma Manaus cercada não pela floresta amazônica, mas por guardas armados em suas vias de acesso… Sim, do total de habitantes apenas uns 30% são “legais”, isto é, têm permissão legal de residirem ali. Os demais são “ilegais” sem o “hokuo”, o greencard da região. Como na maioria dos casos, imigrantes são jovens. A cidade tinha apenas 300 mil habitantes até 1980, quando resolveram criar aquele acolchoado econômico para absorver o capitalismo pleno de Hong Kong que se libertava do Império Britânico e teria ainda um período de 50 anos de autonomia assistida. Isso explica essa megalópole de jovens.
Apesar de nessa região econômica especial da China imperar o capitalismo com direito a propriedade privada, lojas de grife, prostitutas, ocasionais pedintes, tráfico caótico, furtos (roubaram do meu quarto de hotel a câmara que usaria para ilustrar esse artigo) não cheguei a ver nenhum daqueles traços da aviltante miséria brasileira… Sim claro, até na China podemos distinguir os excluídos, pois em um país com 48 etnias diferentes teria que haver aqueles com cara de paraíba… essa grande tribo internacional de excluídos também se faz representar no oriente!!! Até porque nossos índios teriam vindo da Ásia há milênios pelo então seco estreito de Behering. Deduzo que vi os originais…
Todavia, havia algo de estranho naqueles imensos prédios (não vi uma casa, acreditem se quiserem… e olha que rodei muitos quilômetros pelos subúrbios desse maior centro industrial chinês). Apesar de aparentemente modernos, esses monstros habitacionais – muitos com 200 metros de altura – me lembraram a Cruzada São Sebastião no Leblon ou, melhor dizendo, alguns conjuntos habitacionais de boa arquitetura e ocupação “popular” no Brasil, embora baixinhos perto daqueles… Portarias discordantes com a desenvoltura arquitetônica dos prédios e, inevitavelmente, acredito, muitos daqueles buracos nos chãos dos banheiros… Bicho! Aquilo é impraticável para o “dois”… Não sei como podem! Ou seja, por fora bela viola, por dentro pão bolorento…
Diferenças culturais são uma mer…cadoria difícil de lidar. Não achamos aquele barulho ocasionado pela chamada de catarro da garganta algo próprio para o convívio humano civilizado, mas em nome de um verdadeiro conhecimento antropológico acabamos aceitando (ou engolindo ergh) que aquilo é um costume, não falta de educação, são códigos diferentes… infelizmente só isso… Todavia, apesar de odiar visceralmente a falta de liberdade de expressão, de pensar em uma 45 toda vez que alguém fala em censura ou falta de liberdade de ir e vir, de achar que toda organização estatal é a princípio suspeita por abrigar interesses políticos (um jogo de subjugação de pessoas), entendo perfeitamente os motivos que levaram a Revolução Cultural de Mao… a necessidade que eles tiveram de “dar uma zerada” em costumes primitivos de 48 etnias diferentes… seria impossível manter a coesão nacional e tocar o barco para frente. De resto também “zeraram” a discrepância na distribuição de renda, como sempre, nesses casos, a nomenclatura surgiu e, inteligentemente, a transformaram nos novos capitalistas de um experimento social que visa trazer empregos, modernidade e riquezas para o país…
Quando entramos em contato pessoal com costumes diferentes percebemos o quanto isso pode ser difícil. Nem tudo é folclórico, como as sombrinhas que as chinesas usam, mesmo todas elas vestidas com trajes ocidentais. Faço aqui um parêntese para falar da minha admiração pela beleza local… casava fácil com uma que não puxasse o catarro em pleno restaurante… Ou então algumas daquelas comidas (não vou falar, só seria eloquente se tivesse algumas fotos… até porque dá para driblar a coisa numa boa…).
Falo de coisas muito mais profundas… Em Hong-Kong, que poderíamos imaginar absolutamente ocidentalizada, vi um comercial de TV no quarto do hotel que explica o que falo… Uma mulher oriental com um traje típico de algum outro país asiático (HK é alvo de imigração de países próximos) bate à porta de uma residência e o chefe de família implicitamente de Hong Kong faz um sinal de “não” com a mão (o “não” se indica de forma igual!) para a esposa que atende à porta, indicando que rejeitava aquela mulher. Batem mais outras três mulheres igualmente representando outros países asiáticos, e só a última é aceita. Esta provavelmente era uma local, ou talvez de Macau, etnicamente chinesa… O comercial era de uma agência de empregadas domésticas. A cena final mostra a moça servindo a mesa dos patrões, toda contente, e uma das rejeitadas falando alguma coisa que obviamente não entendi, mas que deveria ser alguma barbaridade que ocasionaria uma síncope em nosso pensamento já tomado pelo politicamente correto dos últimos 30 anos. Isso porque, apesar de vivermos em países capitalistas onde impera a mais valia, temos uma saudável vergonha – mesmo que hipócrita – da exploração e preconceito étnico-racial a que ocasionalmente são submetidos outros seres humanos. Aquele comercial em uma Hong-Kong ainda autônoma reflete o que os ingleses deixaram para trás. E olha que eles eram “bonzinhos” em comparação com os Mandarins da China mainland de antes da Segunda Guerra Mundial. As diferenças culturais quando entram (e entram sempre, não se iludam…) no terreno do que chamaríamos de senso comum de justiça se tornam inaceitáveis. O antropólogo sempre ficará horrorizado quando a tribo estudada corta a cabeça da virgem sacrificada, essa é a realidade. Viva a globalização cultural, que só reste pequenos folclores e pratos regionais, mesmo que de escorpiões ou lesmas monstruosas !!!
Eu recomendo uma viagem à China a quem tenha coragem de encarar 15 horas de vôo transpolar direto, como o que peguei em Newark, principalmente para aqueles que acham que já viram de tudo. Não se assustem com um tempo tão grande nesse Guantanamo aéreo, provavelmente a maioria dos que me lêem nesse momento não fumam… eu é que tratarei de contratar o ex-médico do Michael Jackson para me anestesiar da próxima vez em que lá voltar… Dessa vez foi a negócios, da próxima vou tentar misturar com lazer, até porque é impossível resistir a um negócio da China estando na própria.”
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