Ontem à noite na telinha apareceu Sonia Braga, fazendo o papel de mamãe da policial Jennifer Lopez.
Que idade terá Sonia Braga, perguntamos Claudia e eu. Fui ao computador saber que ela vai fazer 59 anos em junho, e que nasceu em Maringá.
Sonia Braga me lembrou Guaracy Rodrigues. Há anos eu não me lembrava, pelo menos no meu consciente, do Guará. Minha tristeza foi total quando descobri que morreu em 21 de fevereiro de 2006.
Guará era o cinema brasileiro. Nada importava para ele além de cinema e quem gostava de cinema, seus amigos. Nasceu em 1941, em Belo Horizonte, no mesmo ano e cidade que Neville de Almeida, seu amigo e protetor durante toda a vida, no Rio, onde pasaram a maior parte de seus anos(como todos bons mineiros) e outros lugares do planeta. Foi roteirista, diretor, sonoplasta… em dezenas de filmes. Mas foi principalmente um ator, diante das câmeras e até na vida real. O professor e autor de cinema Luiz Nazário (foi aqui neste seu link que descobri que morrera) o chamava de Groucho Marx dos trópicos. E era isso mesmo o que era.
Eu convivi um pouco com o Guará em Ipanema, na casa do José e da Berta, em 1968/9, levado pela Elizabeth Neffa, e depois em Londres, em 1970/1. Um sujeito genial na sua maneira de ver a vida e de vivê-la. Acompanhei de longe, às vezes um pouco de perto, a feitura do “Jardim de Guerra” do Neville de Almeida, em 1969. Eu convivia um pouco com a turma do cinema à noite, e durante o dia trabalhava no departamento de reservas da Panam.
Antes de partir de férias em agosto de 1969(fui e não voltei, ficando quase três anos na Europa), ganhei uma passagem de primeira classe, ida-e-volta, de Nova York para qualquer lugar dos Estados Unidos que eu escolhesse, dada pela American Airlines. O Guará me pediu que fosse a Chicago visitar uma moça com a qual ele se correspondia. Eu lhe disse que escrevesse para a moça e anunciasse que eu ia passar lá. Saí de Nova York apenas com um nome e o endereço. Paguei uma dinheirama de táxi e cheguei num subúrbio classe média, com quase ninguém na rua, no meio da tarde. Ela não estava e fiquei na rua durante algumas horas esperando. Quando chegou, ficou assustada com a minha presença, porque o Guará não havia avisado nada. Subi, tomei um suco, batemos um papo de dez minutos e ela arranjou um hotel ali perto para eu passar a noite. De manhã, voltei para Nova York. Minha vingança foi escrever de Londres que eu ficara amigo da secretária da Vanessa Redgrave, e ele foi para lá correndo, participar dos estertores da swinging London.
Quem pensa que a juventude de hoje é louca, precisava ter conhecido a nossa…
Guará nunca teve uma residência. Morou a vida toda na casa de amigos. Não sei se conseguiu terminar o seu livro “Memórias de um Hóspede”. Também nunca trabalhou na televisão: ““Espero morrer antes de fazer TV. Vai contra os meus princípios, apesar de não tê-los”.
Depois de Londres, caminhos diferentes pela vida, eu só sabia do Guará pelos jornais e revistas. E, agora, mais de três anos depois, fico sabendo de sua morte.
Olho no espelho e pergunto perplexo: “O que é isso? O que é tudo isso?”

Guaracy Rodrigues
Aqui uma homenagem do Geraldo Veloso ao Guará, no dia de sua morte.
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