Um dia ao chegar a Buenos Aires, fui vendo pelo caminho do aeroporto para a cidade várias faixas que davam boas-vindas a um general cujo nome não me lembro mais: “Benvindo de volta à Argentina, Gal. Fulano de Tal”, “A Argentina o recebe de volta de braços abertos, Gal. Fulano de Tal”, “Nós os amamos, Gal. Fulano de Tal!”. E aí por diante.
Intrigado, fui descobrir de que se tratava. Esse general fora exilado da Argentina havia um século e finalmente, depois de muitas décadas, alguém resolveu trazer de volta suas cinzas para Buenos Aires. Como havia saído exilado do país, os argentinos se julgavam no dever de dar uma grande recepção às suas cinzas.
Assim caminha a… Argentina.
Alguém pode me explicar esse povo? Existe povo mais apaixonado, ou melhor, cegado pela paixão do que o povo argentino? Quando no Brasil as torcidas levantavam-se apenas para gritar “GOL”, na Argentina as torcidas pulavam noventa minutos ou mais, sem parar. Nunca vi um jogador do Boca Juniors, do River Plate, do Independiente ou de qualquer outro time argentino não correr desvairado atrás da vitória durante noventa minutos de todos os jogos.
A seleção que não saiu do papel leva uma enxurrada humilhante de gols da Alemanha e os argentinos ao invés de escolherem a dedo os ovos e tomates mais podres de Buenos Aires para recepcioná-la, recebe-a como heróis. Gritavam apaixonados à chegada de Maradona e seus pibes como se tivessem ganho não uma Copa do Mundo, mas várias de uma vez.
Maradona é Deus. Ninguém tente convencer algum argentino do contrário. Vi na cara do Messi, ao final do jogo, a sua vontade de pedir “um treinador, por favor, que aproveite o meu futebol!”. Ai dele, porém, se tentar levantar qualquer dúvida sobre Deus! Os argentinos protegem o seu Deus mais do que os muçulmanos a Alá. Seria o final de sua carreira, pelo menos na Argentina.
E sobre Gardel continuam a dizer: “Canta cada vez melhor…”, embora Carlito tenha morrido em 1935!
Dá para entender?
Se alguém entender, que me explique, por favor.
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