Dentre os muitos emails que tenho recebido atacando e defendendo os dois candidatos à presidência da república, pincei esse, que me parece de bom senso e, pelo menos em parte, de acordo com a realidade brasileira:
Chico Oliveira, 76 anos, uma entrevista para reflexão
Eles não têm contato com o real cotidiano popular. Eles não andam de ônibus, não têm experiência do cotidiano da cidade. Nem de metrô eles andam, o que é incrível”.
| “Lula é mais privatista que FHC. As grandes tendências vão se armando e ele usa o poder do Estado para confirmá-las, não para negá-las. Então, nessa história futura, Lula será o grande confirmador do sistema. Ele não é nada opositor ou estatizante. Isso é uma ilusão de ótica. Ao contrário, ele é privatista numa escala que o Brasil nunca conheceu”. |
No começo de 2003, ano em que rompeu com o PT, o sociólogo Francisco de Oliveira, 76, afirmou que “Lula nunca foi de esquerda”.
Agora, o professor emérito da USP dá um passo adiante e diz que Lula, mais que Fernando Henrique Cardoso, é “privatista numa escala que o Brasil nunca conheceu”.
Na entrevista abaixo, Oliveira, um dos fundadores do PT, também afirma que tanto faz votar em Dilma Rousseff (PT) ou José Serra (PSDB), analisa o papel de Marina Silva (PV) e critica a entrada do aborto no debate político pela ótica da religião.
Folha – Qual a sua avaliação sobre o debate eleitoral no primeiro turno?
Francisco de Oliveira – Fora o horror que os tucanos têm pelos pobres, Serra e Dilma não têm posições radicalmente distintas: ambos são desenvolvimentistas, querem a industrialização…
O campo de conflito entre eles é realmente pequeno. Mas, por outro lado, isso significa que há problemas cruciais que nenhum dos dois está querendo abordar.
Que tipo de problema?
Não se trata mais de provar que a economia brasileira é viável. Isso já foi superado. O problema principal é a distribuição de renda, para valer, não por meio de paliativos como o Bolsa Família. Isso não foi abordado por nenhum dos dois.
A política está no Brasil num lugar onde ela não comove ninguém. Há um consenso muito raso e aparentemente sem discordâncias.
Dá a impressão que tanto faz votar em uma ou no outro…
É verdade. É escolher entre o ruim e o pior.
Qual a sua opinião sobre a movimentação de igrejas pregando um voto anti-Dilma por causa de suas posições sobre o aborto?
É um péssimo sinal, uma regressão. A sociedade brasileira necessita urgentemente de reformas, e a política está indo no sentido oposto, armando um falso consenso.
O aborto é uma questão séria de saúde pública. Não adianta recuar para atender evangélicos e setores da Igreja Católica. Isso não salva as mulheres das questões que o aborto coloca.
O que significa a entrada desse tema no debate?
Representa o consenso por baixo devido ao êxito econômico. Essas posições conservadoras ganham força. Há uma tendência a todo mundo ser bonzinho. Nesse contexto, ninguém quer tomar posições consideradas radicais.
Com o progresso econômico, há um sentimento de conformismo que se alastra e se sedimenta, as pessoas ficam medrosas, conservadoras. Isso está ocorrendo no Brasil.
Gente da classe C e D mostra-se a favor de uma marcha de progresso lenta e contínua. Eles não querem briga, não querem conflito. Por isso o Lula paz e amor deu certo.
Se as pessoas tornam-se conservadoras, o que explica a divisão do Brasil quando considerada a votação de Dilma e Serra nos Estados?
É um racha. Significa que a questão da desigualdade regional ainda é muito marcante. Aliás, essa é outra questão que está fora da discussão. Os dois não querem abordar o tema. O que eles têm a dizer sobre os problemas regionais? O que fazer com as regiões deprimidas?
Por baixo disso tudo está a velha história de que São Paulo é uma locomotiva que puxa 25 vagões vazios.
Essa tensão existe. Esse desequilíbrio vai criando a sensação de que há um lado pobre e um lado rico. Como se houvesse um voto comprado, de curral eleitoral, e outro consciente. Há de fato uma fratura, e isso ressurge em períodos eleitorais.
Marina aparece como uma terceira força sustentável?
Acho que não. A ascensão dela se dá pela falta de radicalização dos dois principais, e a questão do ambiente é relativamente neutra. Não vejo eco na sociedade, a não ser de forma superficial. Não é um tema que toca nos nervos das pessoas. A onda verde é passageira.
O sr. foi um dos primeiros a romper com o PT, em 2003, e saiu fazendo duras críticas ao presidente. Lula, porém, termina o mandato extremamente popular. Na sua opinião, que lugar o governo Lula vai ocupar na história?
A meu ver, no futuro, a gente lerá assim:
Getúlio Vargas é o criador do moderno Estado brasileiro, sob todos os aspectos. Ele arma o Estado de todas as instituições capazes de criar um sistema econômico. E começa um processo de industrialização vigoroso. Lula, é bom que se diga, não é comparável a Getúlio.
Juscelino Kubitschek é o que chuta a industrialização para a frente, mas ele não era um estadista no sentido de criar instituições.
A ditadura militar é fortemente industrialista, prossegue num caminho já aberto e usa o poder do Estado com uma desfaçatez que ninguém tinha usado.
Depois vem um período de forte indefinição e inflação fora de controle.
O ciclo neoliberal é Fernando Henrique Cardoso e Lula. Coloco ambos juntos. Só que Lula está levando o Brasil para um capitalismo que não tem volta. Todo mundo acha que ele é estatizante, mas é o contrário.
Como assim?
Lula é mais privatista que FHC. As grandes tendências vão se armando e ele usa o poder do Estado para confirmá-las, não para negá-las. Então, nessa história futura, Lula será o grande confirmador do sistema.
Ele não é nada opositor ou estatizante. Isso é uma ilusão de ótica. Ao contrário, ele é privatista numa escala que o Brasil nunca conheceu.
Essa onda de fusões, concentrações e aquisições que o BNDES está patrocinando tem claro sentido privatista. Para o país, para a sociedade, para o cidadão, que bem faz que o Brasil tenha a maior empresa de carnes do mundo, por exemplo?
Em termos de estratégia de desenvolvimento, divisão de renda e melhoria de bem-estar da população, isso não quer dizer nada.
Em 2004, o sr. atribuiu a Lula a derrota de Marta na prefeitura. Qual sua avaliação de Lula como cabo eleitoral de Dilma?
Ele acaba sendo um elemento negativo, mesmo com sua alta popularidade. O segundo turno foi um aviso. Há uma espécie de cansaço. Essa ostensividade, essa chalaça, isso irrita profundamente a classe média. É a coisa de desmoralizar o adversário, de rebaixar o debate. Lula sempre fez isso.
Como o sr. avalia as afirmações de que o comportamento de Lula ameaça a democracia?
Não vejo como uma ameaça. Mas o Lula tem um componente intrinsecamente autoritário.
Em que sentido?
Ele não ouve ninguém, salvo um círculo muito restrito, e ele tem pouco apreço por instituições.
Eu o conheço desde os anos de São Bernardo. Ele tem a tendência, que casa perfeitamente com o estilo de política brasileira, de combinar primeiro num grupo restrito e, depois, fazer a assembleia. Ele sempre agiu assim.
Não é pessoal, é da cultura brasileira, ele foi cevado nisso. Mas não que ele queira derrubar a democracia.
Isso é da cultura política em que ele foi criado: o sindicalismo, que é um mundo muito autoritário, muito parecido com a cultura política mais ampla. E ele se dá bem, sabe se mover nesse mundo.
As instituições de fato não são o barato dele. Mas ele não ameaça a democracia do ponto de vista mais direto nem tem disposição de ser ditador. Acho essas afirmações um exagero, uma maldade, até. Elas têm um conteúdo político muito evidente.
Agora, certa ala do PT, com José Dirceu… Esse tem projetos mais autoritários.
E essa ala ganharia mais força num governo Dilma?
Acho que não. Porque Lula vigia ele de muito perto. Lula não gosta dele [José Dirceu]. Tem medo, até, do ponto de vista político. Ele veio de outra extração, a qual Lula detesta. Uma extração propriamente política, de esquerda.
O sr. já disse que Lula havia matado a sociedade civil. O que pode acontecer num governo Dilma e Serra? Haveria diferença?
Os governos tucanos têm horror ao povo. Isso não é força de expressão. É uma questão de classe social.
Eles não têm contato com o real cotidiano popular. Eles não andam de ônibus, não têm experiência do cotidiano da cidade. Nem de metrô eles andam, o que é incrível.
A cidade é grande, tem violência, a gente sabe. Mas eles não sabem como é o transporte, como são os hospitais, as escolas públicas. Há uma fratura real, eles perderam a experiência do cotidiano real. E isso não entra pelas estatísticas, só pela experiência.
Por causa disso, o governo deles é sempre uma coisa muito por cima. Eles são pouco à vontade com o popular. Essa é a diferença marcante em relação a Lula.
Sobre Dilma eu não sei. Ela pode também sofrer desse mal.
Mas, do ponto de vista da evolução e da função dos movimentos sociais, qual dos dois é preferível?
Eis uma questão difícil. Os tucanos, com esse horror a pobre, tendem sempre a aumentar essa fratura, essa separação. Os tucanos não têm jeito…
Tags:Chico Oliveira, Dilma, eleições presidenciais brasileiras, Lula, Serra
Fausto,
Obrigado pelas suas palavras.
Na verdade, estão acontecendo muitas coisas ao mesmo tempo em minha vida. Algumas bastantes desagradáveis(felizmente não é problema de saúde), mas outras muito boas. Uma das boas é que o meu Green Card está praticamente aprovado. Outra muito boa eu não posso dizer. As desagradáveis também não. Mas todas espero contar em futuro não longínquo, ao distinto público do Leia Junto.
O blog segue o ritmo do blogueiro. As vezes com o silêncio a gente acaba dizendo muita coisa. Eu achei muita perda de tempo os ataques contundentes contra os dois candidatos da fase final da eleição brasileira. Os dois têm telhado de vidro, e teve gente se esgoelando, sem tempo para ver as mazelas de seu candidato. No meu silêncio, eu quis mostrar que não vale a pena tanto esforço para convencer os eleitores do candidato contrário.
Também lhe desejo tudo de bom, e quando passar por Miami, vamos nos reunir com o João para tomar um chope.
Cesar,
Espero que esteja tudo bem contigo e com a tua família. Meu medo no fundo era que algo não estivesse legal e que a falta de tempo — que na maioria absoluta das vezes é uma coisa boa — não fosse o que estava te impedindo de postar.
Como você é o dono do saloon, esperamos que você nos sirva o whiskey, faça o pianista tocar, coloque as dançarinas pra rebolar e puxe aquela shotgun de cano duplo de debaixo do balcão em caso de briga no amável recinto… Como isto não tem acontecido, ficamos nos perguntando se a cidade estaria virando uma cidade-fantasma.
Não adianta ficar decepcionado com os rumos dos EUA. Você que mora aí há tanto tempo deveria saber que os americanos têm razões que a própria razão desconhece, como muito bem ressaltou o Canali num post logo abaixo sobre a saúde pública, ou melhor, sobre as expectativas que os americanos têm a respeito dela. Fique tranquilo porque a vida é curta e no fim tudo se ajeita. Parece coisa de budista baiano, mas creio que é assim mesmo.
“Tudibão procê”.
F.
Canali,
O tal site está até agora fora do ar, não sei o que houve. Quem mo recomendou foi um amigo americano, republican até os ossos e de longa data. Curioso mesmo.
Claro está que há dedos rábidos da direita conservadora por trás da peça, mas o mais interessante é o jogo que se faz com fatos e ficção, que aos olhos desavisados dá alguma credibilidade ao apresentado. Sim, há uma crise rondando por aí, há o deficit norte-americano, há muitas coisas… daí para a falácia sutil é um pulinho.
Com meu amigo americano comentei sobre a minha surpresa diante da alfinetada que o filmete faz sobre saúde pública. Como é que pode? Saúde é investimento na produtividade, investimento no desenvolvimento. Ele me disse que o que o filme atacava não era tanto o Obama Care em si, mas a extensão de serviços de saúde pública a uma multidão de imigrantes ilegais que não mereciam outra coisa senão uma passagem de volta para onde vieram, no que ele teria uma boa dose de razão não fossem estes imigrantes parte da força-motriz que mantem a engrenagem dos EUA se movendo (e eu o lembrei deste fato).
Apesar da minha participação aqui seja esporádica e às vezes até não muito contributiva (admito isto), acabei
). Daí minha surpresa quando verifico que faz quinze dias desde que o último tópico foi publicado aqui. Blog que não publica e cobra que não se mexe, morrem ambos… um por esquecimento e outro de fome. Mas o não é nosso, portanto o que nos resta é esperar.
gostando deste blog (culpa sua, seu João…
F.
Fausto,
Eu tenho alguns motivos para estar levando o blog à meia-bomba. Motivos de trabalho e motivos de família. Mas eu não quero ficar dando desculpas. Estou um pouco desiludido com assunto de política e organização social humana. Estou vendo a coisa ir ladeira abaixo por toda a parte, principalmente nos Estados Unidos. Acho até que o Brasil, mesmo com a Dilma, está num caminho melhor.
O vídeo, que vi, é apenas uma das provas de que esse país ou está mesmo à espera de uma grande virada positiva, como escreve o João, ou está indo rápido para uma crise econômica sem fim.
O que o chinês se esquece de dizer é que há guerras sugando o dinheiro americano a cada segundo. Nem o chinês e nem os americanos, o que é muito pior, se dão conta disso. Como o João diz, é vergonhoso o que se está fazendo com a questão do seguro saúde. Perdeu-se a vergonha de se ser ganancioso ao extremo. O pequeno, o pobre, estará perdido se se confirmar que os republicanos ganharão maioria no Congresso. Os americanos não estão sabendo ler os sinais dos novos tempos e estão querendo manter a hegemonia a todo o custo. Um custo muito caro para corpos, mentes e corações. Ao invés de tentarem ganhar corações e mentes no Afeganistão e no Iraque, eles teriam que pensar nos seus próprios corações e mente.
O video do chinês é sem dúvida criação de republicanos e tea-parties.
Fausto, acredito que esse filme seja uma das tantas peças publicitárias patrocinadas por essa – já insana – direita-corporativa americana, que se disfarça desde caipiras facistoides do Tea Party até comentários pagos na elite da midia americana… aliás “elite” com muita boa vontade, coisa boa e independente existe, mas está na categoria do “garimpável”… trata-se de uma crise intelectual também… o que é mais ou menos desculpável e natural em virtude da queda das ideologias, dessa guerrilha lutada no ponto a ponto dos fatos.
Os problemas de médio e longo prazo dos chineses são comparáveis ou maiores que dos americanos, eles também estão rodando uma daquelas bicicletas que só conhecemos nas gravuras de antigamente, com um rodão na frente e uma rodinha atrás… Quanto mais de vagar ela andar, maior o perigo do ciclista cair, quando ela para o ciclista cai feio. Ninguém encontrou um jeito de saltar dessa bicicleta, nem de fazê-la estável enquanto anda devagar e pior… inexoravelmente o ciclista está esgotado…
Nesse ponto eu gostaria de refazer a maneira como enxergam os EUA, aliás toda a economia da era industrial… Alguém já deve ter escrito sobre isso, eu só quero enfatizar com uma grande generalização. Os EUA tem vivido em toda a era moderna da venda de energia… Mais ou menos como o Brasil de hoje, que vende a água que possui (em grande artigo de meses atrás a Geographic Magazine demonstra como isso acontece, o mesmo é válido para energia…) transformada em comodities da agropecuária. Quem manda na coisa são os produtores e distribuidores de energia em seus variados formatos (petróleo, carvão mineral, nuclear…). Claro que eles estão revendendo o petróleo dos árabes, só para deixar clara a coisa… E óbvio que o modelo está exaurido e condenado a espera de algum breakthrough tecnologico. A grande estratégia americana nesse momento é ganhar tempo para o surgimento (ou liberação… veja bem o que estou falando…) dessa inovação. Terão cacife para aguentar? Puxarão o Colt 45? Para tiros de caramuru? Para tiros no pé… ou para tiros na cabeça… Quando uma sociedade rechaça a idéia de seguro universal de saúde é porque ela está muito doente mesmo, é quando mais precisam dela. Que idiota é esse que quer pagar tudo sozinho quando poderia rachar com os demais… e tudo isso para benefício de meia-duzia?! ou melhor, porque sonham secretamente com um dia inexistente a pertencer a essa meia-duzia… Sim eu sei… um mundo onde crianças acreditam em papai Noel, aprendem que esse não existe e depois, em uma espécie de irrecorrível recaida, passam a acreditar em Papai do Céu… tudo pode acontecer nesse mundo…
O Cesar, não cobriu essa reta final das eleições… Acredito que por um misto de nojo, não querer repetir publicamente seu apoio a Dunga e de fato estar ocupado… Mas garanto que vai responder a isso…
P.S.: Dunga ganhou novamente, vamos torcer que dessa vez o Dunga búlgaro saiba manter o time ganhando… Vivas ao novo rei… isso é rainha…
Canali,
Parece que o site saiu do ar como um todo, não sei se vai voltar, tente mais tarde.
Mas basicamente o que rola é um auditório, na China, cheio de jovens chineses na platéia e um coroa dá uma espécie de palestra ou aula magna. Ele fala (em chinês, legendado) dos impérios do passado que caíram: grego, romano e… americano. Enquanto ele fala slides passam numa tela atrás dele. Ele começa então a enumerar as causas que fizeram o império americano ruir: débitos crescentes para reativar a economia, “self-taxation”, isto é, tirar dinheiro dos cofres para investir em iniciativas de retorno duvidoso que não deram certo (o filme se passa no futuro, daí eu estar usando o tempo verbal passado na minha descrição), etc. Nesse ponto ele cita uma das causas e não pude deixar de me lembrar de você: o health care. O palestrante coloca débitos (gastos) com saúde como uma das razões para a queda do império americano. Ele também fala (isso mais no início, no comecinho da explicação dele) que, por ter se afastado dos ideais e princípios que o fizeram poderoso, os EUA despencaram de sua posição imperial.
No fim do filme, ele diz que os EUA deixaram um enorme débito, que agora estava nas mãos dos chineses “e por isto os americanos hoje trabalham para nós”. A platéia ri jocosamente, ou melhor dizendo chinesmente (nunca vi um povo para rir tão diferente dos demais…). Dura uns 30 segundos o filme.
É isso aí… Tentei por todos os meios achar o video no YouTube mas nada feito.
F.
PS: O que estará acontecendo com o Leia Junto e/ou o Cesar? O Brasil acabou de eleger um novo presidente, ou melhor, presidenta e este blog aqui, que era para estar fervilhando de opiniões e debates, nem se mexeu. Algo non centra proprio, diriam os italianos. Tomara que seja apenas falta de tempo do Cesar.
Fausto, retiraram do ar… O que era?
Pessoal,
Nada muito a ver com o tópico, mas alguém me chamou a atenção para este video, que gostaria de compartilhar com vocês (o que não quer dizer que eu concorde com seu conteúdo).
http://swineline.org/media/
Quem quiser ver faça-o antes que seja retirado ou substituído por outro.
F.
João,
Não passa tudo de uma grande vergonha, a gente ter que discutir coisas ruins que estão longe de nosso alcance resolver. Gosto de resultados, e fico muito frustrado ao me sentir impotente, tendo o Brasil um potencial enorme para fazer os brasileiros melhores de vida. A política é suja em todas as partes, mas no nosso país é suja em demasia.
Eu talvez não vote em branco, mas será um voto chocho, desesperançado. Não me animo com essa situação. Uma vitória do Serra poderia dar uma sacudida na moral de muitos, mas sei que já está tudo amarrado, muito bem amarrado, e velhos esquemas de corrupção substituirão os novos, e bola prá frente…
Cesar, não vejo em uma eleição uma aposta de perder ou ganhar. Embora concorde que a probabilidade de haver uma mudança significativa para melhor seja muito pequena com todos os dois candidatos, acredito que a probabilidade de piorar com Dilma, é bem mais forte.
Esse parecer não vem só de minha imensa antipatia pela petralha em geral, é baseado na análise de um fato muito simples, essa pessoa não tem um currículo significativo a apresentar. O que ela fez de tão eficiente que justifique a sua escolha como presidente? Ser escolhida por Lula ou por petistas? Fala sério!
Tudo na vida tem seu outro lado. Também tenho a tendência de olhar a floresta como um todo, olhar a grande figura… ver lá de cima e coisa e tal… até porque sou preguiçoso e muito elitista para dar importância as essas figurinhas da política brasileira (assumo)… No entanto, existem vantagens em contarmos as árvores, uma a uma, e sermos detalhista como programadores de computador, que são obrigados, as vezes, a contar byte a byte, quando não bit por bit. Então vamos lá…
Durante a campanha revelou-se que Esmeralda falha gravemente justamente onde um presidente tem que ser bom, na escolha de assessores. Essa mulher tinha como principal assessora na Casa Civil, considerada seu braço direito, uma pessoa trazida por ela, alguém que não lhe foi imposta por nenhuma injunção política, essa tal de Erenice Guerra a quem escolheu como sucessora quando saiu do governo para fazer sua campanha, que usava o estado para enriquecer sua própria família com tráfico de influência!!! Desmascararam a dita cuja de tal forma que nem pensaram duas vezes em demiti-la, nem em defendê-la… Um governo que tem um indivíduo na chefia que reage de forma boçal até para defender agressores de campanha que jogam objetos sobre o candidato adversário (Mesmo que fosse um factoide provocado ou uma valorização de oportunismo político, o cara escorrega novamente do pedestal de presidente, o que, aliás, faz sempre… Só mesmo contando com a paciência do povão… Não gosto de pobreza física nem espiritual, principalmente essa… O que não quero pra mim, não quero para os outros, por isso não me envergonho de me denominar elitista… Mas, não pensaram duas vezes antes de defenestrar a tal da Erenice, ou seja, a coisa era feia mesmo, não havia defesa ou falsa acusação de campanha. A mídia aliada ao Serra acertou na mosca, colocando Esmeralda, pela primeira vez, em uma saia justa que não era causada por suas banhas fartas de baiaca matrona.
Foi esse episódio que nos deu mais uma chance para refletir nesse segundo turno… Chance de contarmos as árvores, depois que já vimos o tamanho da floresta. Jogaram a bomba de fumaça da questão do aborto (por esperteza ou incompetência de ver a verdadeira causa, não importa…) que bem demonstrou o quanto Esmeralda está despreparada para governar nada além do que uma escola pública de subúrbio, como diretora odiada por todas as mães de alunos, de tão autoritária e pernóstica que seria. Todos sabendo de sua condição de pessoa não ligada a religiões (marxista que colocou a vida em risco para quase matar ou mesmo matar, essa é outra bomba…) com histórico de manifestações a favor do aborto, de maneira atabalhoada e falsa renega suas convicções (que nesse caso são iguais as minhas)com uma carta aberta a religiosos onde promete trair as convicções que todos sabem que possui… Na lógica petista ela pode demonstrar não ter convicções algumas além de obter o poder, desde que Serra seja do mesmo time… Mas, Serra não sai de sua coerência, não tira a máscara… Por quê? Por que tem experiência, coisa que Esmeralda não tem. Lula também não tinha, se pensarmos em termos administrativos… Mas, tinha a malandragem do “não me comprometa” de seu tempo de pelego e depois militante partidário… A experiência de Esmeralda foi de aprender a falar “né” (um cagoete de fala típico dos diretórios acadêmicos dos anos 70)… Hoje que ela retirou isso da fala, ficou um espaço em branco com ares de má concordância, reparem.
Não vou votar em branco, porque isso seria favorecer a Esmeralda que está na frente das pesquisas… Sei não heim… E você, Cesar, sabe disso. Eu que nunca gostei das escalações de Dunga, não vou contribuir com a entrada do Felipe Melo em campo, todos sabiam que ele era um jogador violento e destemperado e ele confirmou, vou tentar colocar um outro volante que também não gosto, mas, que é menos imprevisível e perigoso, já que dá quase na mesma, para que arriscar, não é? Ta decidido, vou votar no careca.
João,
Com relação a você, eu descobri que tenho uma perspectiva bem diferente de ver as coisas.
No caso de Lula, acho que se deve ao seu elitismo confesso.
Repito: as pessoas têm 40% ou menos de influência em sua vida pessoal e o mesmo se aplica à sociedade. Enquanto as pessoas não conseguirem se distanciar e verem a floresta, ficarão contando árvores. Vendo a floresta, perceberão que Lula antes de tudo “é o cara certo, no lugar certo, na hora certa”. Perceber isso não me faz absolutamente lulista. Acho que ele é um oportunista no bom sentido, como foram todos os outros presidentes que souberam analisar o momento brasileiro e tomaram as medidas necessárias que os tornaram populares, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, apenas para dar dois exemplos. Acredito também que o momento de Lula é esse, e se daqui a quatro anos for eleito de novo, seu governo deverá ser um verdadeiro desastre(não se entra no mesmo rio duas vezes). E nessa esparrela o povo brasileiro deverá cair.
Essa disputa entre Serra e Dilma não me empolga. Tanto que acho que meu voto vai ser mesmo branco. De longe, a milhares de milhas daí, aí mesmo é que bocejo diante dessa corrida, até porque parece que Dilma já ganhou.
Não consigo fazer dessa disputa uma Copa do Mundo, principalmente porque pouca coisa mudaria, fosse Serra o eleito.
Nós é que temos que mudar, para merecermos no futuro governos bons, realmente interessados no bem estar de toda a população.
A mudança está em nós, pode crer!
Cesar, eu não sou um pouquinho elitista, sou muito… O que eu não caio é na esparrela de acreditar que o atual governo é que foi responsável pela atual arranque.
Quantos arranques econômicos desses já não assistimos Cesar?
Você, seguramente muito mais do que eu… O maior deles eu não peguei, que foi o do pós-guerra, o “país dos Cadilacs”… depois foi os anos JK, a roubalheira que resultou em Brasília, onde a indenização dada ao Rio foi suficiente para remover diversas favelas (olha como sou elitista!!!) e criar o Guandu que salva os cariocas até hoje. Uma época em que a percepção do Brasil ainda era só do eixo Rio-São Paulo. Prosseguindo, o Milagre Econômico dos milicos que peguei em cheio, como eu era feliz e não sabia… A Boutique da D.Hilda bombava com as dondocas mais ricas da extinta Guanabara… Conheci pessoalmente Ives St. Lourant e Mario Puccini e outros em seus respectivos ateliês europeus, quando ainda não eram tão conhecidos… mas, gostei mesmo foi de ver as modelos das bichonas descuidadamente trocando de roupa na minha frente (não levavam fé no jovem mancebo, mas se esqueciam de minha poderosa mão…), antes de desfilarem para minha avó, a “grande compradora” e seu valet de chambre, segurança e, principalmente, carregador de sacolas… Uma executiva da moda de fronteira, precursora de todas as Daslus (tem uma outra agora que também dançou… também de São Paulo… esqueci…) que surgiram posteriormente… O Plano Real foi outro arranque fenomenal (e esse até que com consistência, na verdade é a base do arranque atual… as custas de um endividamente público colossal com molho de toneladas de petro-dólares disfarçados de investimentos externos…) mas aí, já estava vindo para cá em meio a lágrimas (eu gostava muito de minha vidinha em Teresópolis) e a famosa banana da janela do avião… Acabou o João informal, que até fábrica caseira de cartuchos de videogame piratas chegou a ter…
Quando estive no Brasil da última vez, vi melhorias no consumo (nos carros, na quantidade de pobres sobre duas rodas e com um celular nas mãos pagando as tarifas mais caras do mundo, TV High Definition, etc…) mas, a insana e inviável violência, a desorganização social, os barracos da miséria absoluta ainda estavam lá intactos… O Brasil que criticamos esta lá feito um condenado que saiu no indulto do natal e ainda não voltou para o presídio. Um país com os índices de insegurança pública do Brasil não pode dizer que melhorou nunca. Entenda que isso é loucura social. Só por causa do barateamento e facilidade de comprar gadgets em 300 mil prestações inadimplentes? De espelhinhos do índio moderno?
As melhoras que escutamos de todos podem até serem duradouras ou sustentáveis ao longo do tempo… Mas, afirmar que elas são fruto do maravilhoso governo de Lula, eu acho, no mínimo, falacioso… Sugerir que o povo é ingrato por não eleger a mamãe petralha (só falta os números no peito e o nariz preto,) ahhh isso é “adungar” novamente.
Não, João, eu sei que você não é contra a economia informal. Temos aí um mal-entendido. Apenas acho você um pouquinho elitista ;o))).
No fundo, o que acontece é que o povo não quer muita conversa, não. O povo vai nos finalmente, e não é fiel a quem lhe faz o bem. É feijão-com-arroz na mesa, celular, carrinho na garagem, e uma viagem a Paris de vez em quando para ver a Torre “Eifer”. Assim como a gente não tem muito controle de nossa vida pessoal, assim a vida da sociedade evolui de formas diversas do que se quer. Como disse anteriormente, a impressão do presente é muito forte sobre nós, de forma que a gente não consegue ver as modificações que vão se processando sem parar.
Um dia Lula será uma fotografia na parede, assim como Getúlio Vargas é hoje.
Vejo hoje os americanos torcendo o nariz para os latino-americanos imigrantes ilegais. Mas seus avós chegaram aqui da Europa empilhados em porões da terceira classe, fedendo, doentes e famintos. Arrotam grandeza mas se esquecem que há três gerações eles eram assim.
O mundo todo fedia há 200 anos. Esses cabeças chatas e neguinhos brasileiros serão os mandantários do Brasil do futuro.
Ou a gente se adapta ou morre antes do tempo.
Fiquei com a impressão que você me colocou em uma posição contrária a economia informal. Logo eu?! Ex-Proprietário da Buccaneer Software e neto da D.Hilda e sua boutique doméstica!? O que eu acho é que o Lula não representa a pequena iniciativa privada, que é o cerne da economia informal, muito pelo contrário. A parte nobre do capitalismo, se é que devemos achar uma parte nobre nesse modelo… e cada vez mais sufocada mundo afora por impostos de uma lado e a concorrência dos preços imbatíveis dos grandes monopólios, cartéis e oligopólios. Se existe um centro ideológico, esse é formado por pequenos empreendedores autônomos, pequenas companhias e profissionais liberais. Estão no meio de dois monstros exploradores e já totalmente sem muitas opções, até porque não conseguem isoladamente agregar novas tecnologias, não possuem capital para isso, inovar tecnologicamente (esqueçamos essas firúlas de gestão, falo de ciência aplicada)… e sem novas tecnologias não iremos a lugar algum, em termos planetários.
Como você sabe estive no Brasil esse ano, e a partes que sempre me importaram no país, continuam lá de forma intacta. Agora é preciso querer ver, não me junto a ninguém que coloca óculos de lentes coloridas para ver um colorido que não existe… Se tiver que sentir medo, o sentirei até o talo, enfrento ou corro, mas não engulo historinhas da carochinha como se fossem tranquilizantes, na verdade, não funciona.
Agora Cesar, não podemos confundir reais mudanças com maquiagens que foram proporcionadas pelo avanço da tecnologia mundial. O brasileiro pobre hoje tem celular barato não por causa das privatizações do FHC ou supostas políticas sociais de Lula. O brasileiro tem celular hoje, da mesma forma como os indianos, paquistaneses, etc… Uma benesse da globalização industrial que temos no mundo.
Cesar, por favor, não faça com o Lula o que fez com o Dunga…
)
João,
A realidade é que essa gente está pronta para não somente entrar na economia com seus celulares, mas também governar o país, como ficou comprovado com o Lula. As mudanças são inevitáveis e nos pegam de surpresa o tempo todo. A realidade não pode ser colocada numa proveta.
Se analisarmos o que o mundo se tornou desde a Segunda Guerra Mundial, nada poderia ter sido predito. Algumas coisas puderam ser preditas, como no caso de Vaneevar Bush, que previu a Internet e a era digital, mas o resto ninguém previu. O presente nos achata. Você já experimentou no inverno fazer um exercício mental e sentir calor? Não dá. A realidade se impõe e a gente não vê as mudanças que estão se operando.
Outra dia você e eu conversávamos que embora a gente pense que tem um sentimento do Brasil atual, escondidos aqui em Miami, estamos nos enganando. Nesses anos o Brasil tornou-se outra coisa diferente. Mesmo você, com a TV ligada na Globo, reconhece que a vivência em carne e osso é imprescindível.
Na década de 60/70, passei 3 anos seguidos na Europa e voltei para um Brasil pouco mudado. Agora, não espero, depois de quase cinco anos seguidos fora, que se passe o mesmo quando eu voltar. Terei que me atualizar muito nos poucos dias que ficarei lá. Será uma experiência pela qual espero com ansiedade.
E, pegando a carona no que disse o Evandro… Engraçado que escrevemos mais ou menos ao mesmo tempo falando mais ou menos a mesma coisa…
Tem um amigo meu, economista de formação, que trabalha na mafiosa área de seguros, que possui uma tese muito interessante em relação, não a privatização da telefonia, mas, ao acontecimento primariamente de avanço tecnológico mundial, que possibilitou que os telefones móveis ficassem ao alcance dos tais dos descamisados urbanos brasileiros. Seu argumento é que se o Brasil possui mais de 50% de sua economia nas mãos do que se convencionou chamar de economia informal, o advento da facilidade de comunicação móvel foi um insumo comercial que revolucionou tudo… Com todas as letras, afirma que de todas as possíveis causas da melhoria da mobilidade social brasileira (Plano Real encabeçando a lista) na última década, foi o telefonia “móbile” – fazendo o devido trocadilho forçado com os nomes – que foi a causa mais importante.
Seu argumento tem consistência, lembra que a economia informal não é feita apenas de sacoleiros e camelôs, mas de uma infinidade de quebra-galhos (eletricistas, bombeiros e pedreiros reparadores, etc… todos sem carteira de autônomo ou autorizações especiais), costureiras, diaristas, enfim, milhões que não encontram sentido algum em dar alguma coisa a um estado como o brasileiro, que duplifica o custo do que cobra com uma insana burocracia (que até melhorou devido a informatização dos serviços, mas que ainda está longe da simplicidade da burocracia de outros países…).
Essa gente, passou a ser chamada, passou a fazer clientela… Ele grita… Acordem!!! Há 15 anos atrás nada disso existia, se quiséssemos um handy-man para consertar a pia tínhamos que enfrentar a boa vontade do porteiro arranjar um conhecido dele, tendo ainda o risco do sacripanta avisar os ladrões da administradora ou o sínico, o que sempre traria despesas adicionais que ninguém quer… Não tinha como chamar aquele rapazinho que havia resolvido o problema da última vez. Agora o telefone dele está ali em seu celular. Diaristas, com ou sem carteira, puderam não depender mais das agências de empregadas, puderam organizar sua agenda sem intermediários… Os sacoleiros recebem encomendas de última hora, até mesmo enquanto comem um churrasco grego nas ruas de Ciudad Del Leste… Se transformaram em virtuais lojas ambulantes, ao terem como serem encontrados, passaram a poder dar garantia informal a sua clientela… Afirma que foi a economia informal que empurrou gente dentro das novas classe emergentes, pois eles passaram a consumir mais e, assim, aumentarem o consumo geral que gera aos empregos formais. O Zé Mané com um celular é que está pagando tudo isso, argumenta finalmente… Até porque, com os absurdos 75% de impostos nas tarifas da telefonia móvel, o governo também está recebendo o dele indiretamente, junto com o cartel multinacional instalado no país… Quantos autarquias inchadas de petistas não são sustentadas por isso?
Exageros a parte, eu diria que essa visão é o tipo de verdade que incomoda pacas aos políticos.
Evandro,
Faz sentido o que você escreveu. Ambos os partidos no poder tiveram sucessos e insucessos. Como na vida da gente, às vezes a gente não gosta de alguém e acaba gostando e fazendo uma grande amizade. Acho que o governo Lula fez o tucanato acordar para alguns aspectos do relacionamento com as massas, para os quais ele não atentava. Alternância no poder, estilo americano, não sei se é uma boa para o Brasil, porque a máquina teria que ser toda reconstruída a cada ciclo. Por outro lado, não se poderá deixar um grupo no poder para sempre. Que decidam as urnas!
Beth,
Que o PT não gosta das elites, é problema do PT, ao qual não pertenço. Seguramente nem todos da elite têm ojeriza de povo, mas o tucanato se encaixa quase todo nesse grupo elitista. Não sabem gozar as benesses de sua grana e ao mesmo tempo respeitarem os que não tiveram a mesma sorte.
Todos gostam de Paris, e acho ótimo que a Classe C tenha acesso. Isso só vai elevar o bom gosto e a finesse do povo brasileiro. Miami e Orlando, há horas em que não se escuta outra língua que a de Camões. Acho isso tudo excelente. Viajar é um modo de educar-se. Viva o povo brasileiro! Como disse em comentário anterior, Lula deu uma achatada nas diferenças sociais brasileiras.
João
Concordo com tudo, como sempre…
Só discordo num ponto: o problema da segurança em São Paulo melhorou MUITO nos últimos anos.
Cesar, a classe C e D não são as mesmas depois de Lula, elas não são as mesmas depois do Plano Real. Há diversos fatores tão acidentais e fortuitos como alheios a capacidade administrativa do atual governo que estamos deixando de lado e que é de suma importância nesse arranque consumista que é maquiado de prosperidade…
1 – O spread, a taxa de risco brasileira que caiu como que a permitir a ida (fuga) de capitais de investimento para o Brasil em meio a crise internacional.
2 – O anúncio do pré-sal… Claro, o fato de que vamos exportar ouro negro é o mesmo que temos bens como pagar.
3 – O aumento das exportações de comodities para China (Teria Alkimin feito acordos com a China? Creio que sim…)
4 – Valorização das comodities.
Fundamentalmente estamos observado um efeito gangorra, ela desce ela sobe.
Eu acho que o único mérito de Lula como presidente foi de servir de símbolo de estabilidade política, afinal, ele era a oposição “radical” que havia alcançado o poder depois de décadas… Teriam que apelar para Farcs e MSTs para imaginar algum risco revolucionário no Brasil. Lula se manteve equidistante de extremismos e navegou o barco seguindo as forças da correnteza de bem coma “zelites”, com os intelectuais de esquerda (os artistas), de bem com o povo e até com a canalha corrupta do congresso e do executivo. Daí a pergunta novamente… Esmeralda foi escolha de Lula ou do PT? Afinal foi a mídia que o livrou de José Dirceu, ele não fez isso por conta própria e até se deixava influenciar por esse em seus macabros planos de transformar a corrupção do congresso em algo menos hipócrita, digamos assim… Foi preciso aquele escândalo. Outra ajuda da mídia veio do NY Times que fez com que ele tomasse mais cuidado com sua imagem em relação a bebida…
Bom, o que importa agora é sabermos definir entre Serra e Esmeralda.
Corrupção:
Com Serra será menor, pois a oposição no congresso será maior, logo haverá mais denúncias de uma turma que já tem a experiência de como ordenhar as tetas da viúva. Com a Esmeralda, os esquemas se sentirão mais confiantes, haverá um incrível aumento do tráfico de influência.
Saúde:
Serra se sentiria na obrigação de melhorar alguma coisa, já que atribuiria sua passagem como ministro da saúde como parte de seu êxito. Na verdade saberia o que fazer para maquiar a situação. Com Dilma a saúde seguiria mais ou menos igual, iria depender do desenvolvimento do caixa do governo.
Educação:
Depois que teve que se rastejar diante os místicos-dependentes, Dilma capricharia na Educação, até para se vingar… Maneira formalmente correta do Brasil sair desse atraso de mentalidade cultural que compromete o desenvolvimento do país. Serra avançaria para o ensino técnico… Na base do quero mais capacitação para explorar… não me interessa ninguém com muita coisa para pensar… Peão, antes de ser doutor, seja um bom gerente.
Segurança:
Ambos não fariam nada… É o que podemos deduzir do que falaram nesse sentido, nenhum dos dois possui vontade política firme de acabar (ou tentar) com esse que é hoje o pior entrave para o Brasil sair do terceiro mundo.
A eventualidade do estouro da Bolha…
Serra não colocaria o pescoço do estado em risco, Esmeralda zeraria o caixa. Difícil dizer o que seria menos ruim.
Democracia:
A democracia ganha com alternância de poder, as economias nem sempre… Mas, como a economia brasileira é decidida por circunstâncias externas, tudo vem de fora para dentro.
Impostos e Burocracia:
Continua na mesma ou piora.
Menos asco:
Aquele que inspirar menos asco é que ganhará. O que vai decidir essas eleições é algo totalmente subjetivo dentro de cada eleitor.
César e demais comentaristas do tema,
Francisco de Oliveira é um lúcido analista das ações e intenções dos políticos e da natureza das pessoas. Mas é, também, um magnífico Quixote, que jamais abriu mão do sonho de uma sociedade perfeita constituída de seres imperfeitos.
Imperfeitos são os ricos e os pobres, os tucanos e os petistas, eu, vocês e a torcida do Íbis. Mas é o que temos, pelo menos para o momento.
Se nos ativermos apenas aos políticos profissionais, tenho a convicção que não há diferença de gênero, só de grau (eventualmente de convicções originais, mas não de praxis cotidiana).
Feito este preâmbulo para tirar as flores e deixar só a arena aberta aos embates, vamos lá.
A admitir que tucano não gosta de pobre, teríamos que aceitar que cerca da metade da população brasileira, às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos, segundo as eleições ganhas ou perdidas pelos candidatos do PSDB, também não gosta. E muito mais do que a metade dos brasileiros, no primeiro turno desta eleição, votou contra a candidata do PT. Levando em conta a predominância de pobres na população brasileira, poderíamos levar o raciocínio à conclusão absurda que uma grande número de pobres se detesta. É melhor deixar os chavões de lado e falar de coisa objetivas.
Os tucanos criaram o real e isso foi bom. Antes, quem começava o mês ganhando cem, no dia do pagamento recebia cédulas com um poder de compra de oitenta. O resto a inflação tinha levado. Os ricos ganhavam dinheiro no overnight. O PT foi contra o Plano Real, mas isso não quer dizer que o PT odeie os pobres.
Os tucanos fizeram o Proer, contra a vontade do PT, e a medida contestada também pelo Toninho Malvadez saneou o nosso sistema bancário, muito antes da crise mundial. Essa providência ajudou a competente ação do governo Lula a receber o tsunami dos outros com a suavidade de uma marolinha. Um previniu, o outro proveu. Isso também foi muito bom para os dois e para todos nós.
O PSDB mudou a regra do jogo no meio da partida, utilizando todo tipo de “argumentos” e inventou a reeleição. E isso foi muito ruim, mesmo permitindo que Lula usasse os oitos anos que o FHC inventou para melhorar a vida de todo mundo, inclusive dos ricos donos de super-mercados, imobiliárias, lojas de eletrodomésticos e fabricantes de automóveis que ganharam uma nova clientela, ávida de tudo – até de falar “Paris” como alternativa de uso do recém-conquistado excedente de renda.
Ah, os pobres também conquistaram os telefones que “não precisavam”, graças à privatização da telefonia.
Outra mancada dos tucanos, que a dupla Palocci/Meireles teve bastante trabalho para consertar foi a malfadada âncora cambial,que afundou a Argentina e quase nos afunda junto.
Veio o dólar flutuante e, graças a ele, não temos o salário mínimo de cem dólares, que o PT tanto defendia.
Enfim, o partido que odeia pobres lançou as fundações de uma moeda estável e o governo do PT distribuiu com ousadia essa moeda para criar uma nova classe média, que fez a alegria dos malditos empresários capitalistas.
Então ficamos assim. Oito anos pra um, oito anos pra outro. E viva a alternância no poder.
Cesar
Dizer que tucano não gosta de pobre e não precisa de telefone é tão preconceituoso quanto dizer que petista não gosta da “zelite” nem de quem tem diploma…
E quem disse que a classe C não gosta de Paris?
É só olhar os sites especializados para ver que a nova classe C está indo para Paris de montão, usando pacotes de viagens em 10 prestações + juros.
Para os EUA então nem se fala! Depois do laptop, conhecer a Disney tornou-se uma verdadeira mania nacional, não tem mais lugar nos aviões até o final do ano…
Menos, meu amigo.
José,
Concordo que há uma tendência irreversível, com ou sem bolha. As classes C e D brasileiras não são as mesmas depois de Lula. Muito pelo contrário. Fala-se que Lula fez apenas continuar a política monetária de FHC. Essa é uma verdade parcial. Lula passará para a história como o presidente que achatou “um pouco” as classes sociais brasileiras, e merece todo o louvor por esse motivo.
Os tucanos não gostam mesmo de pobre. A diferença brutal entre as classes sociais brasileiras para eles é natural. São aqueles que se sentam à mesa e a primeira palavra que sai de suas bocas é “Paris”. Seguem uma tradição do século XIX que só dava valor ao que era europeu. Parte de minha vida passei com essas pessoas. Para elas, favela não precisava de telefone. São insensíveis às necessidades e sofrimentos dos outros.
Lula, está aí mostrado, levou não só o telefone à favela, mas também a Internet.
José, fui no portal da Exame ver a capa. Está muito boa, e boa também a foto da bela morena favelada com o laptop.
Cesar, a revista Exame acaba de sair com uma capa com um representante da Classe C na capa e sem photoshop que é o que ocorre na Veja e Vejinhas. A classe C é a que mais utiliza internet no país. Vejo nos shoppings uma multidão de pais jovens e seus carrinhos de bebes. Estamos no nosso baby boom e acredito que as pessoas lutarão para manter o sonho de uma vida melhor 50 anos depois. Creio que a bolha continuará. Abs
Eu quero ver essa bolha estourar para acreditar.
João
Concordo com vc em quase tudo, risos.
Discordo apenas quanto à bolha imobiiária daqui, pois ela vai estourar antes do que vc espera, risos. Assim como a bolha do carro, fogão, etc comprados a prazo de perder de vista baseado num crédito fácil com juros de 12%…
Abs.
O pensamento desse senhor é mais ou menos daquele expresso pelo Plínio Salgado. A idade acaba trazendo a razão…
Tempos atrás cheguei a desconfiar que Lula fosse uma cria de Golbery… Afinal quem fez a sua fama, quem lhe deu destaque nos tempos que era um marrento sindicalista, foi o próprio – na época, não só totalmente censurado como também manipulado para propagandear as vontades do regime, sempre esquecem dessa segunda parte – Jornal Nacional… Foi através dele que o Brasil tomou conhecimento da existência da “cara” da oposição ao regime. Essa “cara” se fosse preparada em Hollywood, para filme de Halloween político não produziria nada mais eficiente… O bicho papão, sapo barbudo comunista comedor de criancinhas era o Lula em pessoa. A imagem do garagista da grande Paraíba mundial implicando com a vaga do seu carro de forma grosseira. Uma coletânea de estereótipos do mal pintado para os inimigos do regime. A coisa era e foi tão marcante que se atribui a sua primeira eleição como presidente a uma repaginada de sua aparência, contando com isso com o avanço da idade que lhe trouxe um ar mais bonachão. E esse cara no poder? Foi um esquerdista? A ameaça que próceres da burguesia conservadora imaginava? Coisa nenhuma. O único disfarce de esquerdista que adotou foi de ser amigo Chavez e Fidel… Coisa que só valeu para fotos cafonas. Fez um governo de continuidade econômica dando prosseguimento ao que realmente houvera consertado a economia brasileira, o enfrentamento dos bancos, acabando com a mina de ouro da correção monetária, mãe de toda aquela louca inflação que tivemos… o tal do plano real.
Tivesse entrado o Serra o estado da economia seria exatamente o que vemos hoje, pois este teria se beneficiado também da valorização das comodities do fazendão e feito as mesmas benfeitorias assistencialistas. Não houve nada de observável em termos de prática ou vontade política no governo de Lula que pudéssemos apontar como sendo algo de excelente que só aconteceu porque ele foi presidente. Claro, o estado foi aparelhado de petistas e inchou um pouquinho mais do que incharia com Serra, o que se contrabalançou com um pouquinho mais de esmolas sociais.
O que decidiu em tudo que assistimos, com destaque para essa propalada expansão da classe média, foi decidido de fora para dentro… Mesmo agora essa perigosa abertura de crédito que fizeram de dois anos para cá, fundeada por petrodólares ociosos no mercado internacional (ontem a Globo que fatura alto com os anúncios do crédito fácil e tem ficado calada… falou desses dólares que estão entrando sem parar, a cata de uma remuneração diversas vezes maior que é dada nos principais mercados internacionais… estão falando só do dólar baixo, esquecendo da bolha que se forma no mercado de crédito brasileiro… para o Zé Mané pagar o seu fogão “6 boca” e um forno de juros… a coisa já está pipocando, mais cedo do que eu venho prevendo… setembro teve a maior inadimplência desde 2000… a juros altíssimos (ou seja, a capacidade de endividamento é esgotada muito mais rapidamente que na bolha americana, por exemplo, que cresceu em 5 longos anos)… Enfim, esse dinheiro também seria enfiado goela abaixo se fosse um governo do PSDB… também o usariam como propaganda de prosperidade nessas eleições… tudo seria igual, inclusive a inabalável corrupção de todos os setores da nação, que isso parece já ser algo cultural.